A vida de freela me vez ser menos blogueira. Cada vez que blogo vai-se uma pauta que não foi aproveitada, aprofundada. Poderia replicar aqui e ali, mas prefiro as exclusividades. Não se trata de profissionalismo, somente. É mais pelo tesão de pesquisar, descobrir, falar de um assunto pela única vez. Mesmo que essa única vez não seja um assunto, mas um viés.
Tenho a sorte também de ter ideias que sempre são aceitas pelos meus vários empregadores. É, hoje em dia são muitos os meus patrões. E eles, somados, me exigem o máximo de pautas dentro de uma única área.
E de uns tempos pra cá me deu vontade de ter um canto para escrever sobre outras coisas. Um respiro dentro de um assunto que é prazeiroso, mas que não é tudo na vida. Sou meio natureba (se alguém que se especializou em bebidas pode ser, essa sou eu). Sou apaixonada por esportes. Gosto, amo, ir a parques. Gosto de cuidar da casa - tenho um jardim capenga que fui eu que fiz e uma hortinha que até vai bem. E fui eu que fiz.
E há exatos nove meses tenho uma flor maravilhosa, que encanta minhas manhãs e tardes e que me revelou um meu lado que eu não conhecia. Tenho vontade de falar sobre ele, de dividir e de entender, para não perder o deslumbre dessa descoberta. Para continuar prestando atenção no que de fato importa. Para continuar mais permissiva comigo mesma, como sou agora, e me dar ao direito de, entre outras pequenas coisas, escrever sobre o que eu quiser no meu blog.
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Para minha filhota Dália, essa incrível surpresa, meus parabéns pelos nove meses de puro encantamento.
Essa semana fiz duas matéria para a Folha sobre Rosh Hashaná - o ano novo judaico, que é comemorado entre a noite do dia 8/9 e o dia 10/9 até o entardecer. Eu mesma não entendia esse negócio de "a partir do dia tal quando anoitece" até "dia tal no pôr-do-sol", mas a Pessy Gensburg, fonte de uma das matérias, me explicou que para os judeus o dia só conta até o anoitecer como aquela data. Portanto, agora que são 19h e já está escuro, não é mais dia 3/9 e sim 4/9. E será 4/9 até que o sol se ponha amanhã, quando então será 5/9. Isso claro, se no calendário judaico fosse 3/9/2010, mas, para esse povo o clima de "adeus ano velho" é para o ano 5.770. Ok.
Complexo? Pois isso não é nada, nadica, para quem é gói como eu, quando você vê todas as regras alimentares kosher - carne com leite não pode, carne de animal com pata fendida só se ele for ruminate (por isso, caro porco, você está livre dessas mesas), e alimento do mar, só peixe - e com escama, tá? Frutos do mar nem pensar. Isso sem falar nos alimentos que são feitos sob supervisão do rabino, para garantir que tudo esteja dentro das normas.
Tudo tem a sua explicação e simbologia. No Rosh Hashaná, por exemplo, se come pertences da cabeça dos animais numa forma de desejar ser líder. Já o mel surge como desejo de um ano doce. E a maçã...bem, a maçã é tão complicada que a própria Pessy disse que era "nível 10 da cabala". "Você acha que é o caso de te explicar?" Concordei que não. E concordei também que para ser fiel a suas crenças é preciso um tantão de informação e disciplina.
Sabendo disso, Pessy, ao lado do marido, o rabino Noach Gensburg, coordenam o centro Novo Horizonte, em Higienópolis, que difunde a cultura judaica. Lá, onde gravei a edição do Boa Vida sobre os costumes judaicos em seu reveillón e a receita de bolo de mel com maçã, vi até criancinhas de quatro anos "brincando" de simular a cerimônia do Rosh Hashaná, com direito a challah (o pão sagrado) de pelúcia e castiçais de plástico ao som de músicas em hebraico, tocadas ao vivo. No mínimo impressionante.
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Neste link do Guia da Folha Online é possível ver restaurantes, bufês, empórios e docerias que oferecem produtos destinados à ceia e às comemorações do ano novo judaico.
Clique aqui e veja o vídeo em que Pessy ensina a fazer o bolo de maçã com mel.
Não sei - fiz a matéria e a dúvida persiste. Em dicionários gastronômicos encontrei dos dois jeitos (o com dois erres deve ser um aportuguesado). Mantive a grafia original francesa, ainda que a orientação da Folha seja sempre traduzir aquilo que tem equivalente na língua nativa. Mas macarron, até onde sei, não consta nos dicionários Houaiss da vida. Então...
Nem a confeiteira Renata Fernandes, uma das sócias da Folie, sabia dizer a grafia certa. Mas um macaron (ou macarron) bom ela sabia de cor e salteado como se devia fazer. Além dos apetitosos sabores clássicos, ela tinha lá suas maluquices: gintônica com crispiescrocantes foi a que mais me chamou atenção.
Apaixonada que sou por brigadeiro de capim santo, sugeri a ela rechear o docinho com a ganache da erva. Se eu tivesse um forno mais confiável, que me permitisse a aventura de assar um macaron (ela diz na matéria que a receita é simples, mas o forno é elemento-chave), seria esse o primeiro sabor que tentaria fazer.
Engraçado que nessas andaças de jornalista freelancer a gente fala, fala, fala com gente, mas é no fim das contas uma jornada solitária. Os assuntos em geral ficam em torno da pauta, surge uma conversa aqui e outra ali sobre filhos, cidade, esportes, mas quando vai se aprofundar um tantinho é hora de beijo e tchau.
E muitas vezes é o suficiente para discorrer dentro da afinidade com o entrevistado - entrando em searas mais pessoais, correríamos ambos o risco de perceber que, nossa senhora, que chato você é (às vezes acontece) ou o quanto não temos nenhuma afinidade além da gastronomia.
Às vezes rola ao contrário. E com a Renata foi assim. A conversa na cozinha não foi muito além do que costuma ir, nas gravações que costumam levar umas duas, três horas (sim, para dois minutinhos de vídeo, quem é que pode imaginar?). Mas a impressão que ficou, depois do papo fluído e da maneira à vontade de falar, é que aquela, além de uma boa confeiteira, é "gente como a gente". Seria uma pessoa com quem eu teria prazer de conviver - acho que seríamos amigas até.
Mas as três horas passaram, o vídeo terminou. Boa noite, obrigada, beijo, tchau. E uma fonte com quem tive empatia seguiu com seu trabalho e eu com o meu. Seja como for, tardes assim tornam trabalho de freelancer gratificante, por, entre outras coisas, dar a chance de conhecer e trocar ideias - mesmo que por poucas horas - com tanta gente diferente e, com sorte, bacana de verdade.
O texto com a receita e o vídeo do Boa Vida com o passo-a-passo do macaron de pistache você vê clicando aqui.
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Folie - R. Cristiano Viana, 295, Pinheiros. Tels: (11) 7737-3132 e (11) 8326-8288
Marina Fuentes é jornalista, formada na PUC-SP e começou por acaso a trabalhar na área de gastronomia do jornal. Fez pós-graduação em gestão e serviços de bebidas no Senac e cursou a Escola das Artes e Culinárias de Laurent Suadeau, entre outros. (marina.fuentes@uol.com.br).